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AS HORAS O QUE ESPERAM?

 105. AS HORAS O QUE ESPERAM? se a tua boca espera, então talvez a minha carne reaprenda todos os idiomas que os dias usam  para se esconder se a tua boca promete aquele cheiro da terra-arquiteta erguendo os verões e as flores, aí estarei eu sentado sem esperar mais nada se a tua boca diz: regresso trazendo teus tantos olhos e as versões do teu nariz, eu escolho uma pele do teu repertório  e amargo o desperdício, como quem ignora a beleza da chuva e a filosofia do frio mas tua boca ignora isso aqui no silêncio,  onde pingam algumas vozes  que não costuro, a água de banhar-se tem esfriado muito cedo uma apenas (das vozes) se entrega na forma de um inseto que repousa sobre a fotografia  e espera morrer no incêndio do teu cabelo [Altair Martins]

Certos Animais Domésticos

 104. CERTOS ANIMAIS DOMÉSTICOS    [Foto de Leonardo Sessegolo] Certos animais domésticos não saem de casa mesmo que eu saia. Saio, e os dedos,  embaralhados pelas mãos, e também esta voz repetida insistem ainda em cuidar quando atravessam as mesmas esquinas. Mas o hábito nunca teve mapa. O hábito não se perde mesmo quando se atrasa. O horizonte nas pálpebras. Também ele tem esse medo do frio e das pessoas. Se toda árvore que olho  me pertence, respira em mim uma tristeza  insuportável de floresta. Mas só a solidão não tem pressa. Cria raízes, se agarra às paredes e aos talheres. Espera sobre o soalho com essa coisa de bicho e quatro patas de uma cadeira: também não canta, tampouco lê, nem tem coragem de recolher esses desejos que esperam em casa. E no entanto será preciso ensacá-los (quando eu voltar), e será preciso suspendê-los  sobre a grade do portão – fora do alcance de animais domésticos. [Altair Martins]